Rio Grande do Sul, 08 de maio de 2026 - Edição 071

FerNunes | O Fato Sem Filtro - Crédito Editorial Edilson Rodrigues | Agência Senado
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) acordou nesta sexta-feira com a Polícia Federal batendo na porta da quinta fase da Operação Compliance Zero. E, como todo político pego com a mão no pote de mel alheio, correu para as redes sociais com a cara de vítima número um do Brasil. Publicou uma nota que termina com a pérola antológica: “um cidadão completamente indignado”.
Engraçado. Quando se trata de meter a mão no erário alheio — aquele dinheiro suado do pagador de imposto que banca o rombo bilionário do Banco Master —, a indignação some do dicionário do ilustre senador. Aí vira “pressão política”, “perseguição” e o clássico “todo ano eleitoral é a mesma coisa”. Coitadinho. Lidera as pesquisas (segundo ele, claro) e o sistema inteiro se une para derrubá-lo. Em 2018 faltavam 15 dias para a eleição e o povo do Piauí, sensibilizado com tanta maldade, lhe deu seis pontos a mais. História comovente. Quase chora.
Vamos aos fatos, porque o sarcasmo precisa de substância. A PF acusa Ciro de receber mesada fixa de R$300 mil do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — aquele que deixou um rombo estimado em mais de R$50 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos. Cinquenta bilhões. Repita devagar: dinheiro do contribuinte, do pequeno empresário, da viúva que depositava sua poupança no banco que faliu por fraude sistemática, títulos fictícios e desvio organizado. Enquanto isso, o senador “instrumentalizava o exercício do mandato parlamentar” em favor do amigo banqueiro. Traduzindo do juridiquês para o português claro: usava o cargo que o Piauí lhe deu para fazer lobby, favores e proteger quem enfiou a faca no bolso de milhões de brasileiros.
Tem mais. Hotéis de luxo em Nova York, jantares em restaurantes que custam o que um professor piauiense ganha em seis meses e um cartão de crédito do próprio Vorcaro à disposição do senador para “despesas pessoais”. Detalhe poético: o irmão dele, Raimundo Neto, era o administrador da empresa de fachada usada para lavar o dinheiro. Família unida, né? Nada como um bom esquema imobiliário para blindar a “honra pessoal”.
Em março, no calor de um evento, Ciro foi enfático: “se surgir alguma denúncia comprovada contra o senador Ciro, eu renuncio ao meu mandato”. Palavra de homem, disse ele. Palavra de senador. Palavra de quem “nasceu pra servir o povo”. Pois bem, a denúncia chegou. Não é fofoca de jornal, não é meme de WhatsApp. É operação da Polícia Federal, com mandados, quebras de sigilo e tudo que o Estado de Direito prevê. E o que faz o “cidadão completamente indignado”? Em vez de cumprir o prometido, solta nota choramingando que “tentam parar quem lidera as pesquisas” e que “nada me faz abandonar o povo”.
Abandonar o povo? Meu caro senador, o povo é que foi abandonado há muito tempo. O povo é o que paga a conta do rombo de R$50 bilhões. Bem como, o povo é o que vê senador usando cartão de crédito de banqueiro fraudulento enquanto finge indignação com a “perseguição”. O povo é o que elegeu alguém que agora diz que aguenta pressão porque “nasceu pra servir”. Servir o quê? O interesse público ou a mesada de R$300 mil?
A pergunta que não quer calar — e que o Piauí inteiro deveria fazer — é simples: o senador Ciro Nogueira é homem de palavra ou não? Vai renunciar ao mandato como prometeu ou vai continuar desfilando pelo Senado como se nada tivesse acontecido? Vai pisar novamente no Piauí para olhar nos olhos do eleitor que confiou nele ou vai ficar em Brasília, blindado pelo foro privilegiado, esperando a próxima “pressão política” passar?
Porque, convenhamos, esse discurso de “todo ano é a mesma coisa” já cansa. Se todo ano é a mesma coisa, talvez o problema não seja o calendário eleitoral, senador. Talvez o problema seja o senhor mesmo.
Leitores, chega de assistir calados. Questione o senador Ciro Nogueira. Pergunte diretamente: o senhor vai cumprir a palavra dada em março ou vai tratar a própria promessa como mais uma nota de rodapé inconveniente? Mande a pergunta nas redes dele. Exija resposta. Porque quem nasce para servir o povo não tem medo de prestar contas. Afinal, quem nasce para servir o povo renuncia quando a própria palavra o condena.
O resto é teatro. E teatro barato, por sinal.
FerNunes | O Fato Sem Filtro

Captura de Tela do Impostômetro às 21h49, do dia 08 de maio de 2025.
