Rio Grande do Sul, 08 de fevereiro de 2026 - Ano I - Ed. 018

Penduricalhos e a Guerra de Castas no Manicômio Estatal

Dino poda galhos visíveis para salvar a própria imagem enquanto sindicatos babam de inveja

Parem as máquinas. O Brasil entrou em parafuso. Temos sindicatos — historicamente programados para defender até a qualidade do cafézinho na repartição — aplaudindo corte de verbas. Do outro lado, temos o Supremo Tribunal Federal (STF), através da caneta monocrática de Flávio Dino, posando de guardião da austeridade fiscal. Se você, caro leitor pagador de impostos, está confuso, segure a carteira: o teatro está em cena, e o ingresso custa o seu suor.

A notícia é linda no papel: Dino suspende os “penduricalhos” que fazem salários de marajás furarem o teto constitucional de R$ 46 mil (sim, quarenta e seis mil reais, valor que 99% dos brasileiros não verão nem se somarem dois anos de trabalho). A medida é, supostamente, para acabar com a farra dos supersalários nos estados e municípios.

Mas vamos dissecar esse cadáver antes que ele esfrie.

A Hipocrisia Sindical e a “Guerra de Castas”

A reação da CUT, da Condsef e do Sindser é de um cinismo estelar. Eles estão aplaudindo Dino? “Corajoso”, dizem eles. Não se engane. Afinal, não é surto de consciência cívica. É pura inveja corporativa e estratégia de sobrevivência.

A grande massa do funcionalismo (o porteiro da escola, a enfermeira do posto, o técnico administrativo) ganha seus R$ 3 mil ou R$ 4 mil. Para essa turma, o teto constitucional é uma miragem. Quem ganha acima do teto com penduricalhos? A “elite da elite”: juízes estaduais, promotores, auditores fiscais, conselheiros de tribunais de contas e a alta burocracia do Legislativo.

Quando a CUT e a Condsef aplaudem o fim dos penduricalhos, não é porque querem economizar o dinheiro público para construir hospitais. É porque eles representam o baixo clero do serviço público que odeia a nobreza do Judiciário e do MP. É o canibalismo estatal: a base do funcionalismo quer ver o topo sangrar um pouquinho, para variar. O discurso de “combate às desigualdades” é apenas um eufemismo bonito para: “Se eu não posso morder esse queijo, o desembargador também não vai”.

Já o Sindireta (Sindicato dos Servidores da Administração Direta), que soltou a nota de preocupação, foi o único sincero na sua ganância. Ao dizer que penduricalho é “direito conquistado” e não privilégio, eles vocalizam o mantra sagrado do atraso brasileiro: “O que é meu é direito, o que é do outro é mordomia”. Chamar bônus de eficiência, auxílio-paletó ou auxílio-livro de conquista social é um escárnio na cara do trabalhador da iniciativa privada, que tem como única conquista o direito de não ser demitido se matar um leão por dia.

O STF e a Cortina de Fumaça de Ouro

Agora, vamos ao elefante na sala togada. Acreditar que o STF, repentinamente, virou o bastião da moralidade administrativa é de uma ingenuidade infantil.

A moral da Corte está, para dizer o mínimo, no volume morto. Decisões polêmicas, inquéritos intermináveis e uma percepção popular de ativismo político desgastaram a imagem do “Supremo”. O que faz um político (ou um ministro com alma de político) quando a popularidade cai? Arruma um inimigo fácil.

Bater em marajás estaduais é chutar cachorro morto. É popular. O povo adora. Dá manchete. “Olha como o Dino é rigoroso! Olha como o STF cuida do dinheiro público!”. É uma jogada de marketing brilhante.

Essa decisão serve como uma cortina de fumaça perfeita. Enquanto a plebe vibra com o corte do auxílio-creche do juiz do interior do Mato Grosso, ninguém olha para o fato de que o próprio teto de R$ 46 mil é uma aberração em um país pobre. Mais ainda: o STF corta os penduricalhos dos outros. Quero ver quando a lupa se voltar para as mordomias das cortes superiores em Brasília.

Além disso, a decisão joga a bomba para o Congresso, exigindo uma lei que regulamente o que pode e o que não pode. É o clássico “empurrar com a barriga”. Daqui a 60 dias, quando a poeira baixar, os advogados das associações de classe encontrarão uma vírgula mal colocada, criarão uma nova verba indenizatória com outro nome (que tal “Adicional de Existência”?) e tudo voltará ao normal. No Brasil, o privilégio é igual à hidra: corte uma cabeça, e nascem duas com nomes em latim.

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Conclusão: O Teatro dos Vampiros

Não há heróis nessa história.

1️⃣ Os sindicatos que aplaudem só o fazem porque a faca não cortou a carne deles (ainda);

2️⃣ O sindicato que reclama só o faz porque quer manter a boquinha livre;

3️⃣ E o STF usa a decisão como um banho de loja moral para tentar recuperar a legitimidade perdida perante a opinião pública.

O “penduricalho” é o sintoma, não a doença. A doença é um Estado inchado, corporativista, onde servir ao público virou sinônimo de servir-se do público. Dino não está acabando com o “império dos penduricalhos”; ele está apenas podando os galhos mais visíveis para que a árvore do privilégio continue crescendo forte e frondosa, longe dos olhos da população que paga a conta.

Se fosse sério, a discussão não seria sobre “quais penduricalhos cortar”, mas sim por que diabos alguém precisa ganhar R$ 46 mil mais benefícios num país onde o salário mínimo não paga dois tanques de gasolina e uma cesta básica.

Até a próxima encenação.

FerNunes | O Fato Sem Filtro

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