Rio Grande do Sul, 04 de maio de 2026 - Edição 069

FerNunes | O Fato Sem Filtro - Crédito Editorial Ricardo Stuckert
Por um observador que já não se surpreende com nada — mas ainda se indigna com tudo
Que surpresa. Que novidade absolutamente chocante. Um governo, a menos de um ano das eleições presidenciais, resolve “descobrir” que as famílias brasileiras estão afogadas em dívidas. Acordou agora? Não. Simplesmente chegou a hora certa do calendário eleitoral. O Novo Desenrola Brasil chegou com pompa, fanfarra e o presidente Lula no palanque — digo, no púlpito — para anunciar que o Estado vai, finalmente, salvar os endividados da crueldade do mercado financeiro.
Palmas. De pé e com confete.
Vamos chamar as coisas pelo nome que merecem: isso é política pública? Sim. Assim como, é também a jogada eleitoral mais transparente desde que o político beija criança em praça pública? Absolutamente. As duas coisas podem e costumam coexistir neste país de contrastes, onde a fronteira entre a bondade genuína e o oportunismo escancarado é mais tênue do que a fila do INSS.
O Timing Perfeito (Para Quem Entende de Calendário)
O endividamento das famílias brasileiras não nasceu ontem. O Banco Central já vinha soando o alarme há meses: 49,9% da renda anual comprometida com dívidas, quase 30% da renda mensal engolida só pelo pagamento delas. Esses números existiam antes, existiam no ano passado, existiam no ano retrasado. O governo tinha os dados. O governo tinha os instrumentos. Assim como, o governo tinha o tempo.
O que o governo não tinha antes era o termômetro eleitoral apontando na direção certa.
Agora tem. E eis o Novo Desenrola Brasil, anunciado com a urgência de quem acabou de descobrir o fogo. Juros de 1,99% ao mês — o que ainda é, convenhamos, um absurdo em qualquer país civilizado, mas é, comparado aos 15% ao mês que esse mesmo mercado cobrava antes, quase uma obra de caridade franciscana. Desconto médio de 65% na dívida, parcelamento em até quatro anos e a possibilidade de usar 20% do saldo do FGTS para amortizar os débitos.
Que bom. Genuinamente: que bom para as famílias. O problema não é o remédio, ao contrário, o problema é que o médico só prescreveu porque tem eleição marcada.
Generosidade com o Bolso Alheio: A Arte Brasileira
Vamos falar do Fundo Garantidor de Operações, o FGO. O governo vai usar entre R$5 bilhões e R$8bilhões em recursos “esquecidos no sistema financeiro” — uma categoria que soa poeticamente — e prevê um aporte do Tesouro de até R$5 bilhões, caso necessário. A ministra Miriam Belchior garantiu, com aquela serenidade ensaiada de quem anuncia que vai gastar uma fortuna que não é sua, que o aporte “só será feito caso seja necessário.”
Tranquilizador. Muito tranquilizador. É sempre bom saber que o Tesouro Nacional, que é financiado pelo contribuinte que paga imposto em dia, está disponível como última linha de defesa para cobrir inadimplências em um programa lançado às vésperas de eleições. Se o programa der errado, o custo é socializado. Se der certo, o crédito é do presidente. Afinal, é a equação favorita de Brasília desde sempre.
Mas Há o Que Aplaudir — Sim, Há
Seria desonesto, e este colunista preza pela honestidade acima de qualquer conveniência narrativa, ignorar os méritos reais do programa.
Para quem está com o nome sujo por uma dívida de R$100 que virou R$800 com juros compostos, a diferença entre ter acesso ao crédito e ser tratado como um pária econômico é imensurável. O SPC e o Serasa transformaram a inadimplência em sentença perpétua para milhões de brasileiros que perderam o emprego, enfrentaram uma doença, passaram pela pandemia ou simplesmente erraram ao assinar um contrato que não leram — porque a letra era pequena demais e a necessidade, urgente demais.
Retirar essas pessoas do limbo financeiro, permitir que voltem a alugar um imóvel, abrir uma conta, conseguir um emprego que exige ficha limpa — isso é, sim, uma política pública que merece reconhecimento. Pode ser feita por qualquer razão, inclusive eleitoral, e ainda assim ser útil. Essa distinção importa.
O Tigre de Papel das BETs
E aí chegamos ao capítulo mais fascinante — e mais revelador — de toda a novela. Quem aderir ao Novo Desenrola Brasil ficará proibido de apostar em plataformas de jogos online por um ano.
Bravo. Genuinamente bravo. A lógica é impecável: não faz sentido renegociar a dívida do cartão às 14h e às 15h já estar depositando R$200 no jogo do tigrinho em algum servidor registrado nas Ilhas Cayman.
O problema é que a proibição, assim como boa parte das leis desse país, vai funcionar perfeitamente para quem já funciona dentro do sistema — e vai ser invisível para quem opera fora dele.
As plataformas regulamentadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas? Essas, sim, poderão ser notificadas, integradas a cadastros e obrigadas a bloquear o CPF do beneficiário. Tecnicamente viável, burocraticamente trabalhoso, mas possível.
E as que não são regulamentadas? As que operam em paraísos fiscais, que aceitam Pix de madrugada sem questionar, que têm atendimento em português mas CNPJ em lugar nenhum? Essas vão continuar recebendo o dinheiro do endividado recém-renogociado com a mesma desenvoltura de sempre.
O governo proíbe quem pode proibir e faz vista grossa para quem não consegue — ou não quer — alcançar. É a metáfora perfeita da legislação brasileira: robusta no papel, frágil na prática, e sempre com uma brecha generosa o suficiente para que o problema real continue prosperando.
Alguém vai perguntar ao Banco Central e à Secretaria de Prêmios como exatamente esse monitoramento será feito em tempo real, com qual sistema, com qual verba, com qual prazo? Ou o anúncio já cumpriu seu papel e os detalhes ficam para depois da posse?
O Diagnóstico Honesto
O Novo Desenrola Brasil é, ao mesmo tempo, uma política de alívio genuína para famílias em colapso financeiro e um palanque eleitoral montado com dinheiro público. É possível que o programa ajude milhões de brasileiros. É certo que o governo sabe disso e calculou cada detalhe pensando nas urnas de outubro. É inevitável que parte dos recursos não volte — e que o contribuinte honesto, aquele que nunca atrasou uma fatura, seja quem banque o risco no final.
Essas três verdades não se cancelam. Convivem. E é exatamente essa convivência que define, com precisão cirúrgica, o que é governar no Brasil.
Porque Silêncio É Cumplicidade
Agora é com você: você acha que o governo merece aplausos por lançar esse programa — ou deveria ter feito isso há três anos, quando os dados do Banco Central já gritavam? Além disso, você acredita que a proibição das BETs vai funcionar na prática, ou é mais uma lei bonita que vai morrer na gaveta?
E o mais importante: quem você acha que vai pagar a conta se o programa explodir? Comenta aqui, compartilha, discorda, elogia — mas não fica calado. Porque quem fica calado em ano eleitoral está, invariavelmente, votando em alguém.
FerNunes | O Fato Sem Filtro

Captura de Tela do Impostômetro às 13h15, do dia 04 de maio de 2026.
