Rio Grande do Sul, 18 de maio de 2026 - Edição 078

FerNunes | O Fato Sem Filtro - Crédito Editorial Metrópoles

Deixa eu te contar uma história. Imagine que você trabalha, paga seus impostos em dia, assiste sua cidade afundar em buracos, sua escola pública sem merenda, seu posto de saúde sem remédio, sua rua sem iluminação. Agora imagine que, enquanto você vive essa realidade, um grupo de parlamentares — eleitos com o seu voto, remunerados com o seu dinheiro — decide que a melhor destinação para R$2,6 milhões do erário público é... um filme. Um filme biográfico. Sobre um político.

Parabéns. Você acaba de descobrir o Brasil.

A ex-deputada Carla Zambelli, com a desenvoltura de quem gasta dinheiro alheio sem o menor constrangimento, destinou R$2 milhões em emenda parlamentar para a Academia Nacional de Cultura — uma entidade cuja presidente, por mera coincidência cósmica, é a produtora do filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Marcos Pollon entrou com mais R$1 milhão. Alexandre Ramagem, hoje cassado, colaborou com R$500 mil. Bia Kicis fechou o grupo com R$150 mil. No total: R$2,6 milhões de reais do contribuinte brasileiro destinados a glorificar a trajetória de um ex-presidente que, diga-se de passagem, já tem advogados para cuidar da própria imagem — e não às suas custas.

Mas calma. Para não parecer que estamos financiando um filme político com dinheiro público de forma escancarada, a embalagem veio bonitinha: uma série chamada Heróis Nacionais — Filhos do Brasil que não se rendem. Portugal, José de Anchieta, Dom Pedro I. Muito patriótico. Muito nobre. Muito conveniente para disfarçar para onde o dinheiro realmente mirava.

A Criatividade Contábil do Contribuinte Involuntário

O roteiro — e aqui cabe o trocadilho, porque de roteiro se trata — é de uma criatividade que merece, ela própria, uma estatueta. Os R$2 milhões de Zambelli foram depositados diretamente no caixa do Tesouro estadual de São Paulo, onde se misturaram às contas gerais do governo e tornaram-se irrastreáveis. Sim, você leu certo: irrastreável. O dinheiro sumiu dentro do governo como açúcar em água quente.

O Tribunal de Contas da União precisou emitir um ofício — porque nada nesse país se resolve sem burocracia sobre burocracia — para que os valores retornassem às contas de origem. O governo paulista, por sua vez, explicou com a seriedade de quem não deve nada a ninguém que os recursos estavam parados porque faltavam documentos da entidade beneficiária. Documentos. Claro. Sempre falta algum documento quando o dinheiro precisa explicar para onde foi.

Enquanto isso, o ministro Flávio Dino abriu apuração no STF sobre suspeitas de irregularidades em emendas para projetos culturais — incluindo o tal Dark Horse, que foi gravado no fim do ano passado e ganhou nova relevância após o Intercept revelar conversas em que o senador Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção. O valor prometido: R$134 milhões. Comprovado até agora: R$61 milhões. Sabe aquele ditado que diz que o tamanho da mentira precisa ser proporcional à ambição? Pois é.

O Problema Não É o Filme. É a Fila.

Veja bem: não se trata aqui de torcer o nariz para cinema, cultura ou arte. Não é isso. O problema não é o filme em si — é a fila de espera.

Na fila, há crianças em escola pública sem cadeira para sentar. Há pacientes em UPA aguardando atendimento no corredor. Assim como, há estradas de interior que virou rio de lama. Há professores contratados temporariamente, sem plano de carreira, ensinando com livro didático de 2009. Essa é a fila que a emenda parlamentar deveria atender. Saúde. Educação básica. Infraestrutura. Segurança pública. Necessidades reais de pessoas reais que não têm assessor, não têm lobby, não têm produtora cinematográfica para defender seus interesses em Brasília.

Emenda parlamentar foi concebida para corrigir distorções orçamentárias, para levar recursos federais onde o governo central não enxerga. Não para monetizar narrativas políticas de nenhum espectro — nem da esquerda, nem da direita, nem do centro, nem de nenhum político que se considera herói da pátria e quer um filme para provar.

E o pior: isso não é exclusividade de nenhum partido. É a lógica do sistema. Muda o nome no cartaz, muda a ideologia na embalagem, mas o mecanismo é o mesmo: dinheiro público sendo usado para construir poder privado.

Porque Alguém Precisa Te Dizer Isso

Até quando você vai continuar acreditando que existe um salvador da pátria? Que dessa vez é diferente, que esse é honesto, que essa briga é de verdade, que esse movimento vai mudar o Brasil?

Eles constroem filmes com o seu dinheiro. Produzem séries com o seu imposto. Erguem narrativas épicas sobre si mesmos enquanto a sua rua tem buraco, o seu filho estuda em escola sem telhado e a sua mãe espera seis meses por uma consulta no SUS.

E depois pedem o seu voto. E você dá.

Não porque você é burro — longe disso. Mas porque o sistema foi desenhado exatamente para isso: te manter ocupado sobrevivendo enquanto eles prosperam governando. Te dar um inimigo novo a cada eleição para que você nunca olhe para o que está sendo feito com o seu dinheiro no silêncio das transferências bancárias, dos ofícios do TCU e das contas irrastreáveis do Tesouro estadual.

Você não é eleitor. Você é financiador.

Financiador de filmes que não pediu. De séries que não assistirá. De campanhas que não te representam. De mandatos que não te servem.

A questão não é esquerda ou direita. É simples assim: o dinheiro que deveria tapar o buraco da sua rua está tapando a glória de alguém na tela grande.

E você vai continuar aplaudindo — ou vai finalmente exigir a conta?

A escolha, infelizmente, ainda é sua.

FerNunes | O Fato Sem Filtro

Captura de Tela do Impostômetro às 12h27, do dia 18 de maio de 2026.

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