Rio Grande do Sul, 19 de maio de 2026 - Edição 080

FerNunes | O Fato Sem Filtro - Crédito Editorial Divulgação | Redes Sociais
Alguém, em algum momento da história deste país abençoado por Deus e pelos espertalhões, precisou descobrir que a fé move montanhas. O bispo Edir Macedo, com a modéstia característica de quem convida os pobres a darem o dízimo para prosperar, foi além: descobriu que a fé também move R$480 milhões em créditos podres para fora do balanço contábil. Milagre dos milagres. Louvado seja.
O Banco Digimais — nome que soa a fintech jovial, quase promissora — está no centro de uma investigação da Polícia Federal por suspeita de maquiar seus próprios resultados com uma elegância quase artística. A técnica, carinhosamente chamada pelos especialistas de “Zé com Zé”, consiste basicamente em o banco vender suas carteiras podres para fundos de investimento dos quais ele próprio é cotista. É a versão financeira do homem que deve ao próprio bolso e faz questão de parcelar. Genial. Por que não pensei nisso antes?
O resultado dessa criatividade toda? O banco declarou lucro de R$31 milhões no fim de 2025, enquanto escondia, segundo o Estadão, pelo menos R$480 milhões em créditos vencidos que deveriam ter aparecido na conta — e que aparentemente preferiram fazer turismo em fundos com nomes bíblicos como Tabor e Hermon. Porque quando o dinheiro some, ao menos os nomes sagrados ficam.
Falemos do Fundo Tabor, que comprou carteiras de financiamento de veículos do Digimais. Em abril de 2026, o fundo tinha R$960 milhões em créditos. Desses, R$575 milhões estavam inadimplentes. Assim como, mais de R$200 milhões em parcelas atrasadas há até 720 dias. Dois anos. Para quem não sabe, 720 dias é tempo suficiente para um carro financiado pelo Digimais enferrujar, ser roubado, ser vendido por partes numa feira de usados e o credor ainda não ter recebido um tostão. O especialista Alexandre Ripamonti foi direto: "Dificilmente esse dinheiro será recuperado." Tradução para o português financeiro coloquial: foi-se.
Mas calma. A história tem mais camadas do que a teologia do bispo.
As auditorias apontam que há R$3 bilhões em investimentos em fundos que não puderam ser verificados por falta de acesso a documentos. Três bilhões. Ou seja, que equivalem a 75% do total investido pelo banco em fundos. Ou seja, a auditoria foi bater na porta e encontrou — surpresa! — a porta fechada. No Brasil corporativo, isso não é desvio de conduta. É estratégia de gestão.
E por falar em estratégia, a holding de Edir Macedo comprou R$741 milhões em cotas que o Digimais detinha num fundo chamado Hermon. A auditoria independente registrou ressalvas sobre a operação, sinalizando que ela “poderia não refletir condições usuais de mercado.” Em bom português: ou foi um negócio extraordinariamente criativo ou alguém levou vantagem de si mesmo, o que, no Brasil, não chega a ser crime de constrangimento.
Enquanto isso, fiéis em todo o país continuam sendo orientados a semear para colher. A teologia da prosperidade pede que o fiel confie. E o fiel confia. O problema é que quem não está colhendo está do lado de fora do fundo Tabor.
O Digimais está à venda há mais de um ano.
O BTG Pactual, banco que tem o olfato mais apurado do mercado nacional para farejar oportunidade — e, convenhamos, para transformar crise alheia em lucro próprio —, assinou documentos para uma potencial aquisição. Com interesse declarado na “carteira de clientes.” Não nos ativos. Não nos fundos. Na carteira de clientes. Porque o que presta, nessa história toda, é o CPF do devedor. O resto é criatividade contábil.
E para fechar o negócio com elegância republicana, há indicação de participação do Fundo Garantidor de Créditos — ou seja, de mecanismos que envolvem o sistema financeiro como um todo. O lucro, quando aparecer, será privado. O risco, como sempre neste país, tem vocação coletiva.
Está bem. Vamos encerrar com o óbvio, já que o óbvio parece nunca cansar de ser ignorado:
No Brasil, há três setores onde se pode investir sem medo de ser feliz, com rentabilidade garantida e blindagem jurídica de dar inveja a qualquer fundo soberano europeu: banco, fé e política. A tríade sagrada. O triângulo das Bermudas do dinheiro público e privado, onde tudo entra e nada sai — exceto para os sócios certos, nos fundos certos, com os nomes bíblicos certos.
O financiamento de veículos antigos para clientes endividados a 41% ao ano não é crueldade. É produto. O Zé com Zé não é fraude. É estrutura. O fundo com 60% de inadimplência não é falência. É gestão criativa de capital.
E o Brasil assiste. Sempre assiste.
⚠️ Até Quando, Brasil?
Então, caro leitor, a pergunta que não quer calar — e que este colunista faz com o cansaço de quem já fez muitas vezes: até quando o povo brasileiro vai esperar o príncipe encantado?
Não o príncipe da esquerda, não o da direita, não o das lives dominicais nem o das orações de quinta-feira. O povo brasileiro tem um talento raro: o de transformar qualquer político, qualquer líder, qualquer bispo ou banqueiro em objeto de projeção e esperança — e depois de emudecimento e cumplicidade passiva quando os esqueletos aparecem nos armários numerados dos fundos de investimento.
Cobrar chama atenção. Fiscalizar dá trabalho. Exigir incomoda. É muito mais confortável aguardar no berço esplêndido, esperando que alguém, em algum momento, faça o serviço por nós.
Spoiler: não vai fazer.
O cidadão que não lê balanço, não acompanha auditoria, não pressiona o regulador, não exige transparência e não usa o único instrumento real que tem nas mãos — o voto consciente, o consumo seletivo, a voz pública — é, involuntariamente, sócio cotista de todo este circo.
E neste fundo, meu caro, a inadimplência é de 100%. E o dinheiro, como sempre, já foi.
A opinião acima é do colunista e não reflete, necessariamente, a posição de nenhum fundo bíblico, holding episcopal ou banco em processo de aquisição.
FerNunes | O Fato Sem Filtro
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Captura de Tela do Impostômetro às 19h12, no dia 18 de maio de 2026.
