Rio Grande do Sul, 12 de maio de 2026 - Edição 074

FerNunes | O Fato Sem Filtro - Crédito Editorial BRENO ESAKI | METRÓPOLES
Por um jornalista que ainda acredita que indignação é um ato cívico
Há uma tradição no Brasil que transcende partidos, ideologias e ciclos eleitorais. Uma constante histórica tão confiável quanto o nascer do sol e o atraso do metrô: o político brasileiro e o seu imóvel de luxo. Não importa a sigla. Não importa o discurso. Não importa se ele se apresenta como filho do povo, defensor da família ou guardião da moral pública. No final, ele sempre aparece com um triplex.
Lembra do triplex do Guarujá? Aquele apartamento que virou símbolo de uma era, meme nacional, marco histórico da nossa capacidade infinita de engolir sapo com sorrisinho? Pois bem. O brasileiro tem memória curta, mas a arquitetura da corrupção tem memória longa. E ela evoluiu. Saímos do litoral paulista para a Rua Oscar Freire. Saímos de 167 metros quadrados para 514. Saímos do Guarujá para os endereços mais caros de São Paulo. O aluno, de fato, aprendeu com o mestre. E superou o professor.
Ciro Nogueira — senador, presidente nacional do PP, homem de bem, piauiense de fibra, defensor da ordem e do bom senso — comprou um triplex de R$22 milhões. Vinte e dois milhões. Não foi num surto. Não foi num lapso. Leia com calma: foi 26 dias antes de apresentar uma emenda constitucional que, por mera coincidência cósmica, beneficiaria diretamente o Banco Master do seu novo sócio Daniel Vorcaro. A emenda, segundo a Polícia Federal, foi redigida pela própria assessoria do banco. Ou seja: o banco escreveu a lei, o senador assinou, e o apartamento foi o mimo pelo trabalho bem feito. Eficiência pura. O setor privado no Congresso funcionando a todo vapor.
Mas não para por aí. Porque homem de visão não compra apenas um imóvel. A CNLF Empreendimentos — holding patrimonial do senador, carinhosamente registrada no nome do irmão, como manda o figurino da engenharia patrimonial nacional — foi às compras em São Paulo como quem vai ao shopping em promoção de fim de ano. Um apartamento no Itaim Bibi. Outro na Oscar Freire. Por fim, uma casa de R$5 milhões no Morumbi. Tudo para a família, claro. A mãe, a ex-mulher, a filha. Uma família com gosto refinadíssimo e endereços que a maioria dos brasileiros jamais conseguirá pagar nem em vinte gerações de trabalho honesto.
A Polícia Federal, em sua petulância investigativa, ainda ousou calcular que a CNLF comprou 30% de ativos da Green Investimentos — empresa ligada ao clã Vorcaro — por R$1 milhão, quando as ações valiam R$13 milhões. Uma pechincha. Um negócio da China. Uma vantagem negocial de R$12 milhões que, para os ingênuos, chama-se propina. Para o senador, é apenas talento nos negócios.
E as mensagens? Ah, as mensagens. Vorcaro escrevendo para o primo que a emenda saiu "exatamente como mandei". O mesmo Vorcaro cujos diálogos indicam pagamentos mensais de R$300 mil ao senador. Trezentos mil reais por mês. Por dois anos. Para fazer o quê? Defender o interesse público? Esse mesmo interesse público que ele jurou defender ao tomar posse com a mão na Constituição que, ao que parece, ele usa mais como guardanapo do que como guia de conduta.
Ah, e tinha um detalhe. Ciro Nogueira disse que renunciaria ao mandato caso fosse alvo de operação policial. Disse isso. Com a boca. Em público e em entrevista. Como homem de palavra que se apresenta ser. A operação veio. Os mandados foram cumpridos pelo STF. A renúncia? Bem, essa está no mesmo lugar que a moralidade do personagem: desaparecida, sem paradeiro, provavelmente registrada em CNPJ de algum parente.
Porque renunciar, no Brasil político, é coisa de amador. O profissional sabe que foro privilegiado não é um detalhe burocrático; é o plano de saúde da corrupção. É o seguro de vida do homem público que fez da coisa pública o seu negócio mais lucrativo. Com ministros do STF como árbitros, a farra pode durar anos. Décadas. Uma vida inteira de recursos, embargos, habeas corpus e prescrições. Além disso, a toga, por vezes, é mais confortável para o réu do que para a vítima.
E a vítima, aqui, tem nome e CPF: você. O contribuinte que financia o salário, o gabinete, as passagens, a estrutura e a impunidade de quem deveria servi-lo. Você, que vai às urnas de quatro em quatro anos acreditando que desta vez será diferente. Que este é o candidato certo. Assim como, que aquele tem um discurso que faz sentido. Que o outro, ao menos, parece honesto.
O triplex do Guarujá não ensinou nada. O mensalão foi embora. O petrolão virou nota de rodapé. E agora temos o senador da Oscar Freire, com os seus sete milhões em imóveis adicionais, a sua holding no nome do irmão e a sua emenda escrita pelo banco que deveria fiscalizar — e o Brasil segue, como sempre, trocando de personagem sem mudar o roteiro.

Captura de Tela do Impostômetro às 19h09, no dia 12 de maio de 2026.
Até quando?
Essa é a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta porque a resposta é incômoda. Até quando você vai continuar acreditando em salvadores da pátria que chegam com Bíblia na mão e acabam com triplex no bolso?
Até quando vai continuar sendo massa de manobra de homens que discursam sobre o Brasil que "merece mais" enquanto compram apartamentos que o Brasil jamais poderá pagar? Até quando vai delegar o seu futuro, o da sua família e o do seu país para quem demonstrou, com escritura registrada em cartório, que a única coisa que lhe importa é o próprio patrimônio?
Indignação sem ação é entretenimento. E eles adoram que você se entretenha — desde que não apareça para cobrar.
FerNunes | O Fato Sem Filtro
