Rio Grande do Sul, 15 de maio de 2026 - Edição 076

FerNunes | O Fato Sem Filtro - Crédito Editorial Metrópoles
Vamos combinar uma coisa: existe uma certa poesia macabra em chamar de "Operação Sem Refino" uma investigação que envolve uma refinaria suspeita, um esquema bilionário de combustíveis adulterados — e, pasme o leitor, um desembargador de toga alinhada decidindo excessivamente bem para quem pagava melhor. Sem refino mesmo. Na moral e na ética, pelo menos.
O desembargador Guaraci de Campos Vianna — nome que soa tão grandioso quanto sua suposta falta de escrúpulos — integrava a 6ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio. Uma câmara de direito privado. Que conveniente, não é? Porque o que estava em jogo no processo de recuperação judicial da Refit era exatamente isso: direito privado de um grupo que deve mais de R$26 bilhões ao contribuinte brasileiro. Vinte e seis bilhões. Com B. De bola. De bilhão.
Guaraci foi afastado em março pela Corregedoria Nacional de Justiça após ser flagrado nomeando uma empresa pericial que tinha vínculos com a recuperanda — ou seja, a empresa que estava sendo investigada. Isso não é incompetência. Isso não é distração. Ao contrário, isso é um roteiro que precisaria de criatividade para ser mais descarado. O próprio CNJ usou o eufemismo educadíssimo de "impugnação de parcialidade". Parcialidade. Como se o problema fosse o magistrado ter um time de futebol favorito na causa.
"Enquanto o brasileiro médio paga IPVA, IPTU, IR e ainda tem a gasolina adulterada no tanque, o sistema que deveria protegê-lo estava de pijama na cama com os adulteradores."
Mas o espetáculo não para por aí. A Operação Sem Refino, deflagrada nesta sexta-feira pela Polícia Federal, expõe um ecossistema de corrupção que daria inveja ao roteiro de qualquer série da Netflix. Temos: um grupo empresarial com dívidas de R$26 bilhões, suspeitas de infiltração do PCC, sonegação estimada em R$7,6 bilhões, combustíveis adulterados chegando ao tanque do cidadão honesto — e, como cereja do bolo podre, um desembargador que aparentemente achava que a toga era um disfarce, não uma responsabilidade.
E não pense o leitor que acabou por aí. A Operação ainda envolveu o ex-governador do Rio Cláudio Castro — aquele mesmo que governou o estado com o rosto mais sério do mundo enquanto as máfias do combustível operavam livremente —, o ex-secretário estadual de Fazenda Juliano Pasqual e o ex-procurador do Estado Renan Saad. Uma constelação de ex-s. Todos ex-honrados, ao que parece.

FerNunes | O Fato Sem Filtro - Crédito Editorial Polícia Federal
O empresário Ricardo Magro, dono do Grupo Refit é apontado como um dos maiores devedores tributários do país, teve a elegância de estar morando em Miami quando a PF bateu à sua porta. Miami. Claro. Porque quando você deve R$26 bilhões ao Brasil, você não passa o fim de semana em Cabo Frio — você migra para um lugar com sol parecido, mas sem extradição fácil. A PF teve que acionar a Difusão Vermelha da Interpol. Bem-vindo ao Brasil, onde os grandes devedores têm passaporte diplomático no bolso e mala feita.
A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$52 bilhões em ativos. Cinquenta e dois bilhões. Para um país que chora falta de verba para hospital, escola e saneamento básico, esse número não é absurdo — é uma ofensa. É cuspir na cara de cada trabalhador que acorda às 5h da manhã para pagar imposto sobre imposto e ainda abastece o carro com combustível que talvez nem seja o que está escrito na bomba.
O que a Operação Sem Refino revela, acima de qualquer detalhe técnico e jurídico, é um sistema que apodreceu de dentro para fora. Não é um desvio. Não é uma maçã podre no cesto. É o cesto inteiro que está sendo questionado. Quando o guardião da lei — aquele que usa toga, que bate o martelo, que diz "em nome da Justiça" — é o mesmo que assina decisões favoráveis a quem mais lhe interessa, o contrato social rasgou. E rasgou faz tempo.
A toga virou um salvo-conduto. O cargo, um balcão de negócios. E o cidadão comum? Esse continua pagando a conta — na bomba de gasolina adulterada, no hospital sem remédio, na escola sem professor — enquanto o sistema que jurou protegê-lo estava, literalmente, de pijama na cama com os adulteradores.
Parabéns à Polícia Federal pela operação. Agora, a pergunta que fica: quantas outras operações ainda estão por vir? Quantos outros desembargadores, ex-secretários e ex-procuradores estão aguardando sua vez? Porque a sensação — e é uma sensação nauseante — é de que a Operação Sem Refino não revelou a exceção. Revelou a regra.
Até quando você vai acreditar?
Juiz corrupto. Governador investigado. Empresário foragido em Miami. R$52 bilhões bloqueados. E o brasileiro médio continua elegendo, aplaudindo e defendendo políticos e "salvadores da pátria" nas redes sociais como se a próxima eleição fosse finalmente mudar tudo. Você ainda acredita que alguém lá em cima vai salvar você? Ou chegou a hora de parar de ser massa de manobra e começar a exigir — de verdade, com nome e sobrenome — accountability real de quem usa toga, cargo e mandato para se servir às suas custas?
FerNunes | O Fato Sem Filtro
#FerNunes #AJustiçaEstáPodre #OperaçãoSemRefino #OFatoSemFiltro #JudiciárioCorrupto #BrasilSemFiltro #FernandoNunes

Captura de Tela do Impostômetro às 19h38, no dia 15 de maio de 2026.
