Rio Grande do Sul, 16 de maio de 2026 - Edição 077

FerNunes | O Fato Sem Filtro - Crédito Editorial Polícia Federal

Existe no Brasil uma categoria especial de fenômenos que desafia qualquer lei da física conhecida. Não é antigravitacional. Não é uma fusão fria. É algo muito mais sofisticado, muito mais brasileiro: a mudança institucional cronometrada com a precisão de um relógio suíço — que acontece, invariavelmente, quando o investigado tem o sobrenome certo, o padrinho certo ou o DNA político correto.

A Polícia Federal, essa instituição que tanto nos orgulhou em tempos de Lava Jato e que tantos discursos inflamados de certo partido defendeu com unhas e dentes quando investigava o lado oposto do espectro político, acaba de nos presentear com mais uma obra-prima do gênero “Acredite se Quiser”. O setor responsável por investigar as fraudes bilionárias no INSS — o mesmo que teve a ousadia de quebrar o sigilo de Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, primogênito do mandatário máximo da nação — foi, com a delicadeza de um cirurgião, retirado da coordenação do caso.

Puf. Acabou. Tchau.

A justificativa? O delegado queria voltar para Minas Gerais. Que saudade da terra natal, que coisa mais comovente. Alguém precisaria avisar ao delegado Guilherme Figueiredo Silva que ele escolheu um momento particularmente inspirado para sentir aquela nostalgia mineira, bem quando a delação do empresário Maurício Camisotti — um dos peões mais importantes desse xadrez bilionário — chegava ao STF e precisava ser refeita com a bênção da PGR. Que timing, hein? Mozart não teria composto nada mais preciso.

E para substituir esse setor tão incômodo? A Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores, a Cinq. Um nome bonito, burocrático, que soa como aquela música de elevador que você ouve e esquece imediatamente. Exatamente o efeito desejado, talvez.

O mais teatral de tudo isso é que o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, não foi sequer avisado da mudança. Aquele mesmo STF que o petismo passou anos tentando transformar em sucursal do Palácio do Planalto agora se vê do lado errado da mesa — sem informação, convocando a PF para dar satisfações como um pai que descobriu que o filho mudou de escola sem contar. A cena é deliciosa em sua ironia: o tribunal que foi erigido à condição de oráculo supremo da República, que decidiu tudo de fake news a eleições, agora tem que convocar reunião de emergência numa sexta-feira para saber o que diabos está acontecendo com uma investigação sob sua própria relatoria.

Isso, meus caros, é o que chamamos de círculo se fechando.

Mas voltemos ao principal. Romeu Tuma Júnior, delegado de carreira e filho de um dos policiais mais respeitados da história brasileira, escreveu em “Assassinato de Reputações: Um Crime de Estado” algo que deveria ser leitura obrigatória em qualquer cursinho de ciência política desse país: a instrumentalização das instituições investigativas como arma de destruição de adversários e escudo de proteção de aliados não é novidade, não é acidente e não é coincidência. Ao contrário, é método. É sistêmico. É, na expressão mais crua possível, crime de Estado.

O livro não fala do PT especificamente. Fala de um Brasil que aprendeu, ao longo de décadas, a usar o aparato do Estado como extensão do poder pessoal de quem está no comando. E nós, povo ordeiro e festeiro, aplaudimos quando atinge o inimigo e gritamos “golpe” quando atinge o amigo. Essa é a hipocrisia que nos mantém reféns.

Lembram quando Jair Bolsonaro trocou o superintendente da PF? O escândalo foi tamanho que caberia em vinte capas de revista. Moro saiu do ministério. Editoriais foram escritos. Democracia em risco! Instituições sob ataque! O céu estava caindo! Agora, com Lulinha no centro de uma investigação de fraudes previdenciárias que roubaram de aposentados — aposentados, os mais vulneráveis entre os vulneráveis —, um setor inteiro da PF é trocado, o delegado some para Minas Gerais e o relator do caso fica sabendo pela CNN. E o silêncio de parte da imprensa é tão ensurdecedor que dói nos tímpanos.

“Mudança pontual”, disse a PF. “Amplia as possibilidades da investigação”, completou, com a cara de pau que só instituições pressionadas por cima conseguem exibir. Amplia as possibilidades. Claro. Como não pensei nisso antes? Trocar quem investiga sempre amplia as possibilidades — especialmente as possibilidades de o caso morrer na praia com a dignidade de um castelo de areia.

Oposição

A oposição, é claro, foi às ruas. Sóstenes Cavalcante pediu a convocação do diretor-geral da PF. Justo. Necessário. E completamente previsível — porque a oposição também não é uma congregação de santos. Mas desta vez, pela primeira vez em muito tempo, o argumento deles tem o peso irritante da coerência: se Bolsonaro foi execrado por interferir em investigações que podiam atingir seus filhos, o que exatamente distingue o que está acontecendo agora?

A resposta que nos darão é que tudo tem explicação técnica, funcional, administrativa. Sempre tem. No Brasil, toda maracutaia vem embrulhada em papel ofício com carimbo e assinatura. É a beleza do nosso modelo: a corrupção usa terno e gravata, fala bonito e cita a Constituição.

Até quando?

E é aqui que eu paro de falar sobre eles e começo a falar sobre você.

Você que compartilha post de político como se fosse receita de bolo da avó. Você que defende um partido com a mesma fé irracional com que se torce para time de futebol — mesmo quando o time está perdendo de goleada e os jogadores estão vendendo a partida. Você que em 2022 jurou que dessa vez seria diferente, que o salvador havia chegado, que agora sim o Brasil mudaria.

Até quando você vai continuar sendo massa de manobra?

Até quando vai aceitar que investigações sobre seus filhos sejam “coincidentemente” transferidas de coordenação? Até quando vai aplaudir quando o alvo é o adversário e fechar os olhos quando o alvo é o aliado? Até quando vai acreditar que existe, nesse país, um político que acorda de manhã pensando em você — e não no próprio umbigo, no próprio clã, no próprio poder?

Leia Romeu Tuma Júnior. Leia a história desse país. Olhe para os últimos trinta anos de escândalos — todos com os mesmos protagonistas, todos com os mesmos mecanismos, todos resolvidos com os mesmos remédios de sempre: comissão, convocação, nota de repúdio e, no final, prescrição.

O Brasil não tem um problema de partido. Tem um problema de espelho. E enquanto você não tiver coragem de se olhar nele e admitir que foi enganado — de novo —, eles continuarão trocando delegados, mudando coordenações e nos mandando aquela mensagem clássica, com sorriso no rosto:

"Isso é coincidência, juro."

E você vai acreditar. Como sempre.

FerNunes | O Fato Sem Filtro

Captura de Tela do Impostômetro às 22h53, do dia 16 de maio de 2026.